Não Matem a Cotovia, Harper Lee
Título Original: To Kill a Mockingbird
Autor: Harper Lee
Editora: Europa-América
Género: Romance
Colecção: Grandes Obras
Ano Publicação PT: 1986
Páginas: 276
ISBN: 9789721015500
Sinopse
As cidadezinhas do Alabama seriam simples e pacatas se não sofressem de uma doença terrível: o racismo.
Um advogado defende com toda a convicção, e arrostando com ameaças e preconceitos, um negro acusado de violentar uma rapariga branca. A sua luta é contudo vã: nunca num tribunal de Alabama se dera razão a um negro contra um branco.
É uma criança que nos conta esta história. Uma criança que vai descobrindo o mundo que a rodeia e é testemunha e protagonista de violências e atrocidades. A sua narrativa semi-inconsciente quase se torna a voz da adormecida consciência norte-americana.
Laureado com o prémio Pulitzer, já atribuído a romancistas da craveira de Steinbeck, Upton Sinclair, Faulkner, Hemingway e Saroyan, editado em dez países com mais de cinco milhões de exemplares vendidos, Não Matem a Cotovia inspirou o filme Na Sombra e no Silêncio de Robert Mulligan com Gregory Peck.
[Amanhã opinião do filme]
Pelos olhos da pequena Scout somos confrontados com a
discriminação que existia em 1935, no Alabama. Visão inocente de uma criança
perante os ditos assuntos dos adultos tornou este livro leve ao abordar um tema
tão delicado e que actualmente ainda é uma infeliz mancha na história mundial. Provavelmente o
racismo e a injustiça são dos piores defeitos da humanidade.
O foco principal da história é o julgamento de um jovem
negro que o pai de Scout e Jem, Atticus Finch defende. Nunca na história de
Maycomb, o tribunal tinha levado tantas pessoas a assistir a um julgamento.
Mesmo que não seja um sítio para crianças, Scout, Jem e o melhor amigo de
ambos, Dill, assistem à defesa do pai perante uma assistência maioritariamente
branca e racista. Quando Atticus acende a questão da intolerância e dá
esperança num belo discurso, o desfecho de Tom Robinson não podia ter sido mais
surpreende.
E quando fantasmas do passado finalmente aparecem, não podia
ter sido mais admirável a motivação que leva Boo Railey a dar esse passo.
Depois de brincadeiras de infância que pretendiam desmistificar o mistério da
família Railey e em particular a vida de Boo, sem nunca obter sucesso, quando ele
finalmente dá a cara não podia ter ficado mais enternecida pelo motivo em si.
Como diz Atticus "não se conhece realmente uma pessoa sem se ter metido na sua pele e nela ter vivido, ainda que seja por um instante."
Scout com apenas 7 anos é a rebelde e defensora das suas
causas. Jem é mais velho uns anos faz alguma questão de se impor perante a
irmã dizendo que ela nunca percebe dos assuntos dos mais velhos. Ambos tratam o
pai pelo nome próprio apesar da boa relação que têm. Atticus é viúvo e tem em
mãos a grande missão de cuidar dos filhos pequenos e ao mesmo tempo dar-lhes os
melhores ensinamentos tratando-os como pequenos adultos. Tudo o que faz ou diz
tem de servir de exemplo para os filhos, por isso é um homem que tem a mesma
postura tanto numa sala de audiências como em casa. Justo, benevolente e sábio
traduziu-se na personagem que coloco no pedestal de melhor pai, merecendo
claramente este prémio, porque atendendo à época criar uma personagem tão rica
em qualidades só dá mostras que quem dera a tantas pessoas ter um pai assim,
mesmo nos nossos dias.
E porquê cotovia? O significado é dado pelo próprio livro "as cotovias não fazem mais nada senão cantar para satisfação nossa. Não comem coisas nos jardins das pessoas, não fazem ninhos nas searas, não causam danos a ninguém. Cantam com todo o seu coração, para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia," e faz sentido compará-la à história de Tom Robinson. Um homem aleijado que mataram a sangue frio por estar a fugir de um sítio onde nunca devia ter sido colocado, a prisão. Estivesse de pé, sentado ou de costas o mesmo acontece com as cotovias ou outros pássaros que são alvejados sem qualquer indicação apenas para satisfação de quem o faz. Tom Robinson foi condenado apenas pela bondade de querer ajudar uma branca, viu pelos seus próprios olhos que ninguém a ajudava. A compaixão foi mais forte que ele mas o mesmo não se pode ter dizer da jovem branca.
Um único livro publicado bastou a Harper Lee para deixar o
legado que o racismo existiu e irá existir sempre enquanto pessoas que se vêem
como superiores e pertencentes a uma elite não deixarem para lá uma mera
distinção de cor. Nós somos todos iguais, uns mais fracos outros mais inteligentes
mas somos sem dúvida nenhuma seres imperfeitos, todos erramos, a única
diferença está em que há quem aprenda com os erros e há outros a quem os erros nada dizem.
O único defeito do livro infelizmente são a quantidade de
erros ortográficos. Ou há falta de uma letra; ou colocaram uma a mais; ou
trocaram por outra letra. E isto, ao longo do livro, torna-se aborrecido mas é
como diz o outro primeiro estranha-se depois entranhe-se.
Mesmo que seja um livro de 1960, o tema é intemporal. Como
disse, abordar um assunto deste nunca foi nem é fácil, mas colocá-lo nas mãos
de uma criança funciona porque é competente na mensagem que pretende transmitir mesmo passados mais de 50 anos depois da sua publicação. Uma
obra a que ninguém deveria ser indiferente.
Citações:
"Na verdade, nunca poderás compreender as pessoas se não estiveres disposta a encarar as coisas do ponto de vista delas...sem te meteres na pele delas e dares uma volta nessa posição."
"Por vezes a Biblía na mão de um homem é pior do que uma garrafa de uísque na mão."
"A única coisa que, para mim, não se submete à regra da maioria é a consciência de uma pessoa."
"Queria que visses o que é a verdadeira coragem, para não julgares que a coragem é um homem de arma na mão. Coragem é, quando sabemos que estamos vencidos antes de começar, começarmos, apesar de tudo, e irmos até ao fim, aconteça o que acontecer. Rara vezes se ganha, mas às vezes é possível ganhar."
"Chorar pelo inferno em que as pessoas lançam outras pessoas, sem sequer pensar nisso. Chorar pelo inferno a que os brancos lançam os negros, sem sequer pensarem que eles são também criaturas humanas."
"Sempre que um branco fizer isso a um negro, não importa o que ele seja, nem a riqueza que tenha, nem a boa família a que pertença, esse branco é um miserável."
Classificação: 4, 5 de 5*